quinta-feira, 28 de março de 2013

Canto

 

Canto africano
Som de atabaques
Acompanhados por diversas vozes..
Ecoa nos trilhos continentais
Música dolente, dengosa, malemolente...
Encanta pelos lamentos e dizem algo para a gente
Ganham o ar no rítmo de palmas mapeadas
Canto de longe, do canto do mundo...
Chega até nós misturado, encorpado, sacudido
Tange nossos horizontes e oferecem raios
Sinaleiros para que o canto percorra
Diferentes caminhos que despertem a comunhão
Canto que encanta o mundo...
Quebre barreiras... vibre alto  e propague
Que somos todos irmãos
Somos nutridos pela   mesma mãe Terra

Quitandas

 

Bate tambor, moedas para comprar
Mariolas, carvão para cozinhar
Abanador de palha para o fogo pegar
Feijão ainda no molho. arroz na caçarola
Verdura picadinha, na tigela o fubá
Passa o vendedor com o tabuleiro de banana
Passa, passa vendedor.. sua cantiga é muito boa
Lá vem carro de boi, os moleques se alegram
Vem carregado de cana  doce que nem mel
Açucar bem recebido para os doces fabricar
Benzedeira colhe mato  para a prece afugentar
Tudo o  que de ruim pode chegar...
Povoado canta e dança, festança pelos engenhos
 Feitor chegou agora e pensa que pode cobrar
Afetos, carinhos, afagos que surgem devagarinho
Êta! essa cobrança não vinga é moeda do coração
Não  distingue  raça, cor, religião...
Tá no  interior da gente não dá pra calar não...
Afetos, carinhos, afagos...
Não se vende em quitanda, no balcão
Vem de dentro do moço e da  moça
Sem nenhuma  previa preparação
Afetos, carinhos, afagos...
Chega de mansinho na gente.
Sem cerimônia, não  pede  licença,.  não!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dor no Peito

 

Som do apito, navio no mar
Velhas roupas sobre o baú
Pouco ou nada na mão

Sentimentos variados percorrem meu ser
Ser de quem?  Vou laçado, lançado
Pelo mundo de Deus
Indo para longe, distante de tudo
Antes de tudo finco aqui meu coração
Largo meu destino ao sabor das águas..
Que se arrastam pelos continentes
Revoltas,calmas, verdes, azuis
Parecem me falar, mas...
Quebram nos rochedos
Como o estalar dos chicotes
Em corpos, na alma, nas entranhas...
Olhos percorrem a  imensidão...
No vôo da gaivota a ilusão
No peito salta a dor do que ficou
Mãe Terra, mantos, identidades
Daqui pra diante é só recordar
O bem que se tinha nem dá pra contar
Dói o corpo, aperta o peito..
Noite que chega, procuro rumo
Construo outra identidade em mim

segunda-feira, 25 de março de 2013

Folguedos

Festa na vila, povoado todo vem
Batida de pé no chão, vem...
Tem gente pra todo lado
palmas na calçada, a dança rola maneira
Papa de milho, pinga de fazenda para
 O licor de genipapo, tem o cesto de.
 cocada bem doce,  ô, menina!
Tacho de mel, moenda torcendo cana,
Melado... doçuras do bem querer...
Bandeiras sacodem ao sabor do vento
Tudo muito bem arrumado, dá gosto ver
Ginga daqui, joga de lá...
Moleques se divertem com o pião
Quebra, requebrado a vida  tem tempo!
Menino vendendo catavento
Vintém pouco que não compra...
O que se quer, mas alegria é de graça
Dança, dança, ri para o mundo
Que a tristeza passa, passa!

Cantigas e histórias

Canto com sotaques de outras terras
Venho de campos livres para as correntes
Que cerceiam os passos e vigiam ações
Vida, sobrevida clama olhares
Roga benção, bendita acolhida
Manto do céu clareia coração
Bateia corre o rio buscando riquezas
Nascente vertente de novos embriões
De mata, cascata, sabiás nos galhos
Canta, canta lembra meu torrão
Provocado, amarrado na minha história
Banzo rastreando, soltando o que ficou
Canto, cânticos, cantigas saem do meu anterior
Pés no chão, vou no rítmo do batuque
Meu corpo sacode ao sabor do tempo,,,
Histórias... cantigas... toque do tambor
Sigo a história, vivendo estou!

domingo, 24 de março de 2013

Convergências

Saia para festejar de pano todo estampado
As rodas que o mundo move
As mudanças que o mundo faz
Roda que o tempo guarda lembranças
histórias ele leva e traz...
Conta que o moleque ouviu cantigas da Guiné
Conta que sabe falar dialeto africano
Bate palmas ritmadas saudando a capoeira
Tilintando no arame o tempo que se tem
Raízes para todo lado,,,
Suportes de um passado
Passa tempo! Tempo passa!
Histórias que o tempo tem...
Contação que o tempo traz...

Cheiro de chão

Chuva bate no quintal
Lomge toda lavoura se alegra
Param as enxadas...
Tempo  pra passar café
Prosear em volta da mesa
Bolinho  sovado de fubá
Da pinguela a tina aproveita o gotejar
A lenha está no ponto
Batata doce e milho vai assar
Passa o relâmpago, rasga a trovoada
Tem  segredos da terra, mistério puro
No cesto as ervas do bem, de cheiro
Mãe Tininga sabe catar e rezar
Quebra o "quebranto" e as " mandingas"
Que o canto e oração descarrega em outro lugar
Cai a chuva e deixa seu aroma na terra
Abençoa todo roçado...
Força dos céus renovam o fazer dos homens
Pingos d`água reluzentes espelha o meu chão
Vinga o trigo que me dá o pão
Pinga chuva...vem cheiro de chão!

sábado, 23 de março de 2013

Saberes

É melhor que pouco, muito pouco saiba sobre mim...
Venho de longe, colecionando coisas que se abrem
Em pétalas de vida, passagens ornadas pela mansidão...
De chegar entrelaçada com o prazer de estar... no mundo
Nas vertentes do aqui e agora
Horas colhidas ao sabor do querer, da conquista
Do construir fios tecendo o que sou
Sou tudo e ao mesmo tempo nada
Nas paralelas das calçadas deixo passos firmes
E hora cambaleantes no chão de terra sólida
Que se move tal qual balanço de criança
Abro os olhos para o real e espanto toda a fantasia
Que teima em existir em mim
Busco o sol. o sal, nuvens, água, vento e fogo
Mergulho nos anseios que invadem a alma
Lanço estória e estacas, procuro a corda
Na esperança que ela num volteio  arrume
A armação dos nós para manter o porto seguro

Senhora Mãe dos Homens


Senhora! vejo a sombra de suas mãos na parede
E nos meus anseios, rogo proteção.
Me dê sempre boa aventurança
Traga seu manto, tenho fé, paixão e compaixão
Bendito amor que sopra em mim
Vejo o outro como irmão
No mundo não pode haver distinção
Irmandade forma união, a identidade 
faz causas vencer
Histórias de guerras, tempos de paz...
Senhora Mãe dos Homens!
Afasta todo o preconceito
Não permita que se espalhe
Lance sabedoria para reconhecimentos
Da máscara, do mosaico de figuras que somos
Tecidos para conviver na terra...
Senhora! retire as desventuras
Sopre a união em cada conta do rosário
Sua benção nos levará a comunhão.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Lá vem o Balaio


 Terra batida
Passa a carroça devagar...
Dentro o balaio de verduras
É preciso vender e na quitanda entregar
Pelo caminho começa a cantar
    Moço, olha o balaio
   Verdureiro vem de longe
   Tem história pra contar
   Desde o mas de África
   Aqui veio chegar...
   Plantando  sol a sol
   Pra mode rapadura comprar
  Olha a verdura
  Balaio, balaeiro
  Vende com gosto pro sinhô e sinhá!
 ........................................................
Segue o caminho e deixa seus trilhos marcados no chão.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Andança

Fala negro, tido como fuleiro
matreiro, cheio de ginga
Muito trabalho na mata, tempo de colheita
Êta mundo!
Carro de boi seguindo estrada...
Cheiro de goiaba madura  no ar
 Folhas como tapete no chão
Corre o riacho...  a água jorra na quebrada da montanha
 molha  a testa, refresca a boca, solte o olhar...
Ao longe o voar dos pássaros, o cântico da água descendo
Sol castiga e a fadiga chega...
A noite desce... na surdina
Reze uma prece para a senhora abençoar
tanto feito na terra
Para voce  tudo isso é riqueza de fartar
A labuta dá o repartido pão
Dinheiro não há na mão
Brota a semente que fornece a esperança...
Que traz a paz acalmando o negro corpo cansado.
Amanhã... é o recomeço.

Negra

  

 

  

                                               De onde vem o teu feitiço
De trazer tantas histórias
Das correntes... a libertação
O fazer sempre firme e constante
Passar a ferro, cozinhar feijão
Conduzir o filho e manter a tradição
Abanando o fogareiro, a quentura logo vem...
Põe o vestido de chita, flor no cabelo encaracolado
Rebola ao som da música, requebra pra todo lado
Solta o corpo, roda a saia, solta o sapateado...
Corre, olha pro moço!
Deixa sair um proseado...
Negra, joga um feitiço e ...
,,,deixa o moço amarrado

segunda-feira, 18 de março de 2013

Cangalhas

Cangalha no boi,
Cangalha em gente,
Ferro que fere,
Com muita força...com muita força...
Pegue  o  arado para semear o chão.
Grão em grão, lá se vai  o grão!
A terra acolhe, comunhão de sol,
chuva e luar.
Germina a semente que vale para sustentar,
força de gente carente de quase tudo,
Cangalha no boi, cangalha na gente...
Passou o tempo da escravidão!
Toca o sino, embalado pelo menino,
Ferro feriu, ferro castiga, sofrimento marca.
Libertação do gado, de gente ou tudo ilusão?
Cangalhas segue trilha afora...
Vida que cresce, dor que desce, lágrimas que brotam.
Cangalhas  faz o caminho... não deixe o destino mesquinho
secar meu coração.

Engenho Novo


Êta, melado de cana!
Corre morena faceira...
A moenda range a vergadura,
pinga na moringa pois o
sol da terra castiga o
dorso negro do homem.
Engenho Novo, engrenagem velha.
Comida na panela, o sal não pode faltar;
milho pro angu fazer, torresmo para derreter.
Engenho Novo, ô morea,
pé no chão, suor, colhe a plantação,
batuque camarado, jogue o corpo;
a música vem...
sinos de bois, cavadas da enxada,
calos na mão, negro tem que batalhar pelo
pão, no verde da mata, lá de longe  ouve uma canção:
... Engenho Novo, ô Morena!

domingo, 17 de março de 2013

Silenciando

                        

No silêncio negro da noite,
Afetos e conflitos emudecem...
As dores sofridas, os prantos rolados,
Negritude!
O vento leva as mágoas passadas, remoídas,
tempo solidão, lembranças.
Sorriso largo emoldurado pelas durezas.
Oh! vida contida na esperança,
O vigor da fortaleza semeia o norte,
Na busca de ser... percebido, guerreiro.
Persistente, vendo surgir o dia que nasce,
manso, regado de sonhos...
O vento volta a soprar, solta a imaginação.
O sol desperta os sentidos, coração palpita,
Na espera do amanhã  com o toque de falas
oradas e ressurgidas de bocas caladas.